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domingo, 6 de fevereiro de 2011

MAESTRO VOLTA PARA A SUÍÇA

 MAESTRO NESCHLING VOLTA PARA A SUÍÇA
               "O Brasil vive um período de crescimento econômico grandioso mas, ao que me parece, isso não veio acompanhado de nenhum sentimento de aperfeiçoamento cultural"
                       Administrador e maestro de raro talento, como prova o legado da Osesp, hoje uma respeitada orquestra mundo afora, John Neschling se impôs como um personagem relevante da cultura nacional. 
                      Aos 63 anos, recuperando-se de um tumor benigno que extirpou em dezembro de 2010, sobre o qual ele fala pela primeira vez, o polêmico maestro se diz desesperançado com o Brasil – “um país cheio de geladeiras novas e nenhum teatro de ópera funcionando” – e hoje embarca para a Suíça, onde tem casa e fixará residência.
                    Pela primeira vez desde que voltou ao país, em 1997, Neschling diz que viaja “só com a passagem de ida”. Ainda assim, não fecha portas: diz que não faz caminho sem volta, inclusive para o projeto da Companhia Brasileira de Ópera, uma entidade privada criada por ele e integralmente patrocinada pelo Ministério da Cultura em 2010, que não terá continuidade.
                  Quando o senhor anunciou a parceria da Companhia Brasileira de Ópera com o Ministério da Cultura, em novembro de 2009, disse que a ocasião o fazia lembrar de quando anunciou o início do processo de reestruturação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Um ano e meio depois, a companhia se apresentou 89 vezes em 15 cidades, mas não terá continuidade. Algo deu errado ou houve precipitação? 
"Talvez tenha havido, mas eu não me arrependo. Eu me responsabilizo por tudo que foi feito e foi um bom trabalho. Mas eu esperava uma coisa mais refinada ainda e diversas circunstâncias não permitiram."

              Quais foram essas circunstâncias? 
"A burocracia estatal, que é avassaladora. Você espera algo para uma semana e acontece em três meses e enquanto isso é consolado dia após dia. Fizemos grande parte da nossa turnê afogados em dívidas que não eram dívidas impagáveis porque eu sabia que o dinheiro ia entrar em algum momento, mas que nos deixavam numa situação muito desagradável junto aos artistas. Também tive problemas com os produtores. Os métodos da produção foram se chocando cada vez mais com os meus métodos de criação artística de forma que, quando a ópera estreou, informei aos meus sócios que ao fim da turnê eu não continuaria na companhia naqueles moldes.
 A companhia ter sido sido abraçada na sua totalidade pelo governo não deu a ela um caráter excessivamente oficial? E daí? Qual é a instituição em atividade cultural de ponta que vive do dinheiro privado no Brasil? E se vive do dinheiro público não está exposta ao mercado? Essa é uma visão reducionista. Primeiro porque o estado tem obrigação de fazer coisas desse tipo, segundo, porque toda a atividade da Companhia de Ópera foi um processo transparente. Eu fiz uma proposta cultural e o governo encampou e pagou. Se eu tivesse feito essa proposta para uma cervejaria ou uma companhia aérea, eles iriam exigir muito mais contrapartidas do que a simples qualidade do espetáculo."

         Então valeu a pena estar atrelado do governo? 
"Sim, porque 100.000 pessoas que nunca tinham visto ópera fizeram filas para nos assistir e as partes envolvidas cumpriram as suas obrigações. Aconteceu a mesma coisa no processo de reestruturação da Osesp. Nos primeiros sete anos, a orquestra não usufruiu de um centavo sequer de dinheiro privado. No Brasil, o particular costuma apoiar iniciativas ligadas a arte quando ela dá prestígio para a imagem do investidor. O Unibanco começou a patrocinar a Osesp quando ela já estava erguida, não foi por mecenato ou altruísmo."

            Durante a campanha eleitoral o senhor declarou publicamente a sua simpatia pela candidata Dilma Roussef. Esperava, por causa disso, que o governo mantivesse a parceria com a Companhia Brasileira de Ópera? 
"Quando houve a troca de governo eu esperei que o então ministro da Cultura Juca Ferreira continuasse à frente do cargo. E via isso com bons olhos, pois foi com ele que tratei do projeto desde o início, de uma maneira muito franca. Mesmo com a saída dele, eu esperava que a parceria continuasse pela magnitude do projeto, por termos empregado centenas de pessoas e levado cultura erudita a milhares de pessoas. Isso não aconteceu."

              Houve algum contato com o novo governo nesse sentido? 
"Não. A presidente resolveu nomear para o Ministério da Cultura uma pessoa que eu não conheço e que, ao que parece, veio ocupar o órgão como um nome do PT. Até agora o que vi, a julgar por declarações na imprensa, foi uma pessoa despreparada, meio perdidona. Pode ser que com o tempo até seja uma boa ministra."

               A que se deve a sua decisão de deixar o país? 
"Um sentimento de desesperança. O Brasil vive um período de crescimento econômico grandioso, estamos inundados de estatísticas sobre o crescimento de vendas da linha branca e do aumento na construção civil, mas, ao que me parece, isso não veio acompanhado de nenhum sentimento de aperfeiçoamento cultural, de depuração estética. Podemos virar um país cheio de geladeiras novas e nenhum teatro de ópera funcionando. Isso é deprimente."

            Recentemente o senhor enfrentou um grave problema de saúde. Isso influenciou a decisão? 
"Pelo contrário, atrasou. Eu já estava decidido a viver na Europa e só não o fiz em dezembro passado porque fui diagnosticado com uma manifestação tumoral."

           Em que pé essa situação se encontra atualmente? 
"O tumor foi extirpado e não deixou rastros."

          Como o senhor recebeu a notícia? 
"É como um tiro. É duro perceber que você não é invulnerável. De repente você perde a sua imortalidade virtual, o sentimento de que pode acontecer com qualquer pessoa menos com você, e cai num vazio. Descobri o tumor num exame de rotina, numa sexta-feira, e fui operado cinco dias depois. Durante cinco dias eu achei que minha vida acabaria naquela quarta-feira, sem um sentimento prolongado de futuro. Na quinta-feira após a cirurgia, o médico chegou para mim e disse que estava tudo bem, que tinha sido um sucesso. Hoje estou bem e embarco para a Europa."

          O senhor já viveu na Europa antes e foi chamado para voltar ao Brasil. Há um sentimento de exílio desta vez? 
"Não. Já me senti um exilado na Europa, mas hoje eu tenho plena consciência do trabalho que realizei em 14 anos vivendo no Brasil novamente. Por isso não me permito ficar de pires na mão pedindo ajuda para produzir ópera e cultura de ponta. Além do mais, não fecho nenhuma porta e não faço nenhum caminho sem volta."
 DANÇANDO NAS DUNAS

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