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domingo, 1 de julho de 2012

"CRIAÇÃO"






Resumo de "Criação"  -  Gore Vidal 
 Traduzido por Newton Goldman
Ciro Espítama, neto de Zoroastro, aos setenta e cinco anos de idade, já cego, ouve a conferência de Heródoto de Halicarnasso, o Pai da História, no Odeon em Atenas sobre as guerras gregas; revoltado e totalmente contrário à narração feita por Heródoto é incentivado por seu sobrinho Demócrito, então com dezoito anos, a escrever a sua versão da história das Guerras Gregas.
Ciro, personagem principal, narra sua trajetória desde a infância vivida na côrte de Dario, Rei da Pérsia, onde foi educado ao lado de Xerxes, sucessor de Dario, de acordo com a disciplina militar da corte persa. Lá vê e vive toda a artimanha do poder, as conspirações, os bastidores da corte, as jogadas políticas, a falsidade dos relacionamentos, as alianças, etc, o dia-a-dia de uma corte, onde cada um joga a seu próprio favor.
 Odeon de Atenas

Como neto de Zoroastro sua sina natural seria o sacerdócio, mas ele queria ser guerreiro; pouco antes da sua consagração, conhecendo suas aspirações, Dario nomeia-o embaixador do Grande Rei para explorar e conhecer a Índia. Liderando uma caravana e com uma carta do Rei da Pérsia, outorgando-lhe poder para advogar em nome do soberano, segue para explorar o desconhecido para a época.
Em sua estadia na Índia, entre todas as realizações, Ciro se casa, tem duas filhas e conhece Buda. Em seus diálogos conhece os princípios do budismo e compara com o zoroastrismo; conta intimidades sobre Buda, construindo um panorama perfeito para que o leitor possa reconstruir mentalmente a época e imaginar o cotidiano das pessoas que viveram no século V antes da era cristã.
 Buda
Retorna com o desejo de incentivar o Grande Rei a "sonhar com vacas", ou seja, a querer expandir seu reino além do Mediterrâneo, mas os olhos e o coração do rei estavam voltados para outra direção. Apesar de tudo Ciro retorna à corte que já o havia dado como morto e é nomeado Amigo do Rei, cargo que dá enorme prestígio e o faz conhecido por todo o reino.
Quando Xerxes sucedeu Dario e tornou-se o rei da Pérsia, mandou Ciro novamente em missão persa, só que agora para Catai região ocidental do império, onde hoje conhecemos como China. Mais uma vez lá vai o homem que nasceu para ser sacerdote que queria ser guerreiro, mas tornou-se embaixador dos reis Dario e Xerxes.
 Confúcio
Em Catai conhece Confúcio e toda a doutrina da religião chinesa. Este fato auxilia o leitor a fazer comparações entre os princípios de cada uma das correntes religiosas, a visão de cada uma delas sobre de onde viemos e para onde vamos; chegando a citar a afirmação de Pitágoras que se dizia reencarnação de um deus.
Nesta trajetória histórica, Gore Vidal nos coloca frente a frente com as contradições entre a justiça e a liberdade, suas faces em cada país, em cada cidade, em cada comunidade. A reconstrução histórica pormenorizada nos leva a refletir sobre a eterna busca do homem sobre uma explicação para a sua existência, o começo dessa longa estrada chamada vida, até o além de seu final.
Mantendo viva a pergunta com tantas propostas, mas sem uma única resposta que satisfaça, a não ser a dúvida que persiste: o que há depois da vida? Deus, big bang, o acaso, a mutação, a metamorfose, de onde viemos e para onde vamos? Isso fica a cargo do leitor.

“Criação” de Gore Vidal

Resenha de Cláudia de Sousa Dias

Uma viagem pelos costumes, usos e tradições das civilizações antigas, pela mão de Ciro Spitama, neto de Zoroastro, que se encontra na Grécia, em pleno século de Péricles, a ditar as suas memórias ao sobrinho, Demócrito.
 Zoroastro

Criação é uma obra de grandeza sem precedentes, um projeto ambicioso que envolve um gigantesco trabalho de pesquisa histórica, isto é, de observação documental e, simultaneamente, de observação in loco - algo que se depreende pela exatidão e abundância dos detalhes, relacionados com a geografia, o clima, o relevo, a fauna e a flora dos diversos locais por onde “passeia” o protagonista. A finalidade do Autor é comparar as diferenças civilizacionais, do ponto de vista da personalidade coletiva, de povos como os Gregos, os Persas, os Hindus do tempo de Siddhartha e as gentes do Catai, influenciadas por Confúcio, que atualmente identificamos com a China.

Está, também, presente a procura de uma raíz, um antepassado comum, ou um elemento cultural de ligação entre as referidas civilizações, que facilmente se encontra através da investigação das religiões primitivas comuns aos povos indo-europeus ou, melhor dizendo, os descendentes dos arianos, que incluem os Gregos, os Persas e os Povos ao Norte da planície Gangética.
Mas essa característica cultural comum acaba por ultrapassar o fator étnico, conforme Ciro Spitama acaba por constatar, durante a sua estadia no Catai: as motivações primordiais, aquilo que impele o homem a agir, bem como as questões que mais intrigam os humanos são as mesmas: o desejo insaciável de poder, de domínio, ligado à necessidade de hegemonia e sobrevivência, que depende de um indivíduo ou grupo minoritário se destacar de entre os mais fracos; e a procura da origens do Homem, do Mundo, do Cosmos.

Numa palavra: a Criação.

Existem, aqui, duas forças opostas, que estão, normalmente, em conflito. De um lado, estão aqueles que exercem o poder, os que se destacam dos demais pela força, pela astúcia, pelo seu poder aquisitivo (territórios, escravos, ouro, bens materiais). Do outro lado, no mesmo continuum, temos aqueles que exercem outro tipo de poder: aqueles que detém o carisma, o poder de condicionar o pensamento das massas. Sacerdotes ou laicos, estes líderes carismáticos não exercem um poder temporal, mas espiritual. São eles quem lançam e direccionam a construção dos alicerces do eu coletivo. São eles quem constroem o paradigma ou modelo conceptual do mundo e do Universo para cada civilização. Homens como Sócrates, Zoroastro, Siddhartha (Buda) ou Confúcio. Homens que não chefiam estados nem exércitos, mas que movimentam multidões à escala continental, num período em que não se ouvia sequer falar em globalização – embora a ideia de hegemonia, face a todo um Universo terrestre, estivesse sempre presente. Trata-se de homens para quem o único deus em que acreditam realmente é a Sabedoria. Embora cada qual tenha o seu próprio conceito de sabedoria.
 Sócrates

A ética civilizacional é lançada, precisamente, por estas personagens que marcam os traços fundamentais de um eu coletivo.

A comparação das particularidades específicas do carácter dos Atenienses com o dos Espartanos e destes com os Persas, Hindus ou Cataios, é uma das vertentes mais aliciantes do romance. Um aspecto que é largamente enfatizado pelo humor algo sarcástico de Gore Vidal, projetado na voz de Ciro Spitama. Ciro é uma personagem com uma personalidade muito vincada, com convicções religiosas fortemente implantadas, mas que, à medida que vai recolhendo novos elementos cognitivos nas suas viagens, vai colorindo, reformulando as suas crenças originais, pela introdução de novos elementos, sem, no entanto, alterar as fundações das suas crenças.

Curiosamente, a passividade associada ao budismo, inerente à persecução do seu objetivo final – o nirvana, o desligamento das coisas materiais e do mundo terreno, tal como o conhecemos – não o atrai, por achar que esta atitude deixa o caminho livre para os predadores. Agrada-lhe, por outro lado, a moderação e a aversão a toda e qualquer forma de extremismo de Confúcio.
Outro dos elementos de grande interesse para a obra é a forma como o poder é exercido pelas mulheres, nas diferentes civilizações, o acesso à cultura e à instrução e, por último, o grau de liberdade relativa no que toca ao convívio com o sexo oposto.

Em Atenas, só as heteros ou companheiras, como Aspásia, é que jantam, sentadas ou reclinadas, na companhia dos restantes convivas masculinos. São, normalmente, cortesãs de luxo ou, no mínimo, mulheres consideradas licenciosas. Têm acesso à cultura e à instrução, mas não exercem qualquer tipo de cargo público ou político.

Na Pérsia, as mulheres estão sequestradas em haréns e só podem conviver com eunucos e homens idosos, fisicamente repelentes. O que não as impede de exercer a arte da intriga e da conspiração, através do controle da chancelaria do Palácio Imperial, cujo funcionalismo é composto, quase que exclusivamente, por eunucos. É o caso da Rainha Atossa, esposa de Dário, mãe do herdeiro oficial do trono e, posteriormente, da rainha Amestris, esposa de Xerxes e também mãe do sucessor da coroa imperial.

Na Índia, Ciro Spitama tem a oportunidade de verificar a existência de uma grande liberdade de convívio entre os sexos, na casta dos Kshatrias, onde as esposas das famílias da nobreza guerreira podem presidir à mesa, juntamente com convidados não pertencentes à família. O nível de sociabilidade entre os dois sexos é, neste nicho social, um núcleo de vanguarda na Antiguidade. Mas o gênero feminino continua afastado de qualquer cargo administrativo ou político e, até mesmo, de qualquer profissão qualificada e remunerada.
 Kshatrias

No Catai, só as mulheres idosas gozam de prestígio social e de autonomia.

Ao analisarmos Criação, verificamos que o Autor teve o cuidado de avaliar e analisar aquilo que são os fundamentos das principais civilizações atuais, com exceção do continente americano, ao qual, por motivos óbvios, a personagem Spitama não poderia ter tido acesso.

A obra, datada de 1980, surge logo depois do golpe de estado na Pérsia, que derrubou o Shah Rheza Pahlevi, instalando o regime teocrático shiita de Ayatollah Khomeini.

A preocupação com a situação geopolítica e crescente instabilidade no Médio Oriente – nos anos seguintes, estalaria o sangrento conflito entre o Irã e o Iraque, contando este último com os EUA como aliados e apoiantes de Saddam Hussein, o qual tinha, também, recentemente ascendido à chefia da nação, através de um golpe de estado – está na origem do aparecimento desta obra com o objetivo de dar a conhecer a raiz e o fundamento da mentalidade do povo da Pérsia/Irã e o teor das suas relações com os seus vizinhos.

Uma obra isenta de preconceitos civilizacionais, atual e do máximo interesse para quem se apaixona pelas “coisas do mundo”.

Um livro que nos permite mergulhar nos alicerces e fundações da Humanidade e nas suas motivações mais primárias:
A sede de Conhecimento.
O papel do Homem no Universo.
A criação e o fim do Cosmos.
Enfim, o Alfa e o Ômega…

 Resenha de Luciano Alberto Ventura

Nossa civilização ocidental erigiu-se sob uma herança grega tão intensa que, mesmo depois de vinte e cinco séculos, sentimos a necessidade de revisitá-la para compormos uma compreensão de nós mesmos. E, como conseqüência de tal necessidade, muito se tem estudado e publicado com relação ao pensamento grego antigo. Do pouco que já pudemos ler, normalmente nos é apresentada uma concepção que, embora crítica, quase sempre nos aponta o lado favorável do legado grego à posteridade.

Em “Criação” (1981), Gore Vidal, 85, entre outros temas periféricos, apresenta-nos uma visão da cultura e da sociedade clássicas diferente daquela a que estamos acostumados. Para tanto, Vidal constrói uma personagem que nos conduzirá ao longo de toda a obra, confundindo a vida dela com os eventos políticos gregos, e com o diferencial de que nosso anfitrião é um persa e crítico feroz de tudo que seja helênico. Seu nome é Ciro Espítama e, como primeiro fator interessante, Vidal o introduz no romance como neto de Zoroastro, o profeta persa que vivera no século VII a.C., também conhecido por Zaratustra. Tal parentesco, dentro da trama, irá render-lhe acesso à corte persa, possibilitando o convívio com os quatro grandes reis: quando criança, conheceu Ciro e suas histórias sobre a expansão do Império; em sua juventude, serviu e admirou Dário; quando adolescente e jovem adulto, desfrutou da amizade de Xerxes; já na velhice, representou Artaxerxes junto aos atenienses, sendo seu embaixador.
Xerxes

O autor utiliza de outro laço de sangue para construir a narrativa e nos transporta para o século V a.C.: Ciro Espítama narra a história de sua vida, que resulta no próprio livro, a um sobrinho que tinha por conta de sua ascendência materna grega, sendo este ninguém menos que Demócrito de Abdera (460 – 370 a.C.), o filósofo pré-socrático entusiasta da teoria atômica. Após ouvir por mais de seis horas o discurso de “(...) um pretenso historiador (...)” chamado Heródoto de Halicarnasso (485? – 420 a.C) sobre o conflito “(...) a que os gregos costumam chamar de ‘Guerras Persas’ (...)”, Ciro, já velho e cego e, sobretudo, irritado pela versão que acabara de ouvir, inicia ao seu sobrinho, que atentamente toma nota, o relato da faceta persa dos acontecimentos aos quais chamou de “(...) as guerras gregas (...)”. (p. 15). E essa será a atividade construtora da leitura que nos é oferecida pelo romance: o sobrinho Demócrito, anotando as memórias de um persa que, invariavelmente, afronta a versão grega sobre fatos históricos dos quais participou ou pode presenciar.
 Heródoto

Além de podermos apreciar, pela versão oriental, a história político-militar que opôs gregos a persas, o tema condutor da obra e, consequentemente, da vida de Ciro Espítama é o desejo do protagonista de conhecer as hipóteses dadas por diversas culturas sobre a criação. Divulgador do pensamento monoteísta do Sábio Senhor zoroastriano, Ciro era “(...) um crente, claro. Mas não (...) um fanático (...)”, e, sendo possuidor de mente aberta ao que lhe fosse externo, ele percorre uma boa parte do Oriente antigo a serviço dos reis persas, absorvendo, entre o trabalho de promover o comércio com os povos locais, a cultura que se lhe fosse apresentada pelas pessoas que ia conhecendo. (Cf. p. 56). Assim, Vidal, por meio de seu personagem principal, faz-nos conhecer os princípios básicos do Hinduísmo, quando da passagem de Ciro pelos reinos independentes que hoje compõem a Índia. De forma análoga, o autor nos apresenta as filosofias de vida budista e taoísta, ao colocar o neto de Zoroastro em contato com os povos do Cathai, atual China. Interessante, também, é ler as linhas que descrevem o encontro, e o relacionamento que se sucede a ele, entre Ciro e o mestre Confúcio (551 a.C – 479 a.C), além dos fragmentos de ideias de outros pensadores relevantes da época.
Em determinado momento da narrativa, abordando o assunto da criação, Demócrito chega a perguntar ao seu tio “(...) qual das teorias foi a mais curiosa (...)” por ele ouvida. Como resposta, Ciro afirma-lhe uma que dizia “(...) que nunca houve criação, que nós não existimos, que tudo isto é um sonho (...)”, sendo o sonhador “(...) aquele que desperta e lembra (...)”. (p. 212)

O livro mostra-nos, também, como um olhar externo a uma dada cultura pode desvelar a arte da manutenção de privilégios tidos como condição natural, por quem nela está imerso, como nos parágrafos em que o jovem protagonista, na companhia do então príncipe Xerxes, visita os templos da Babilônia que, à época, era uma satrapia do Império, e desmascara a prática dos sacerdotes que, ao se fazerem passar por encarnações de deuses em rituais ditos sagrados, aproveitavam para desvirginar jovens nos templos em honra a estes, segundo Vidal. Xerxes, acompanhado por Ciro, curioso por se inteirar da cultura local, mas mantendo o olhar crítico do estrangeiro, afirma ao administrador do templo de Bel-Marduk, em meio aos olhares perplexos dos guardiões, que naquela noite iria “(...) realizar essa tarefa por um de seus sacerdotes (...)”. Quando o administrador lhe nega o direito, dizendo que ele não era um sacerdote, que somente por um sacerdote o deus poderia se fazer presente, o príncipe persa afirma que “(...) posso fazer de conta que sou Bel-Marduk tão bem quanto qualquer sacerdote (...)” e que, ao se considerar que ele era o herdeiro do reino, o costume facultaria uma exceção. (Cf. p. 137). Evidenciam-se nesta passagem, a força dos costumes, mas, também, a sua flexibilidade perante os interesses do poder político ao qual servem.
 Aproveitando-se da grande extensão territorial na qual se constituía o Império Persa no século V a.C., e, por conseqüência, da diversidade cultural que ele mantinha sobre seu jugo, Gore Vidal nos apresenta um pouco dos costumes dos vários povos que deviam obediência aos reis persas. Ao exemplo da personagem principal, que compara tudo o que lhe seja novo a sua crença interior, Criação nos inspira à prática deste olhar crítico, sugerindo-nos que tenhamos a nós mesmos por objeto primeiro desta análise singular.  Visitar as quase oitocentas páginas que compõem a obra, buscando a cada instante distinguir os fatos históricos dos excessos poéticos presentes na narrativa é um exercício tão intelectualmente profícuo quanto prazeroso.

EMPAÇOCADOS 
 




2 comentários:

  1. Esse livro deve ser o máximo. Tal qual "A Fonte de Israel", de James Michener. Li e amei. Lilis

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