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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

UM POUCO DE CARLOS GOMES 6



Palestra que fiz na Academia Campineira de Ciências, Letras e Artes das Forças Armadas, em Setembro de 2009: 

MAESTRO ANTONIO CARLOS GOMES

(11 de Julho de 1836 / 16 de Setembro de 1896)

Antes de começar a falar sobre ACG, eu gostaria de contar uma estória:
Sou sobrinha trineta do Maestro, pois, sou tri-neta de Sant’Anna Gomes, seu irmão, mas desde minha infância e isso se estendeu por toda minha vida, só o que ouvíamos dos mais velhos, em minha casa eram críticas sobre este genial maestro.

Há cinco anos, comecei a pesquisar sua vida, com a intenção de preparar uma biografia ampla e detalhada e dá-la a meus netos, para que sua lembrança não se perdesse. E decidi, mais tarde, por influência dos filhos, transformar em um livro, onde eu pudesse abranger sua obra e sua vida e onde eu pudesse desmistificar invencionices a seu respeito. E é o que estou fazendo, e depois de todos estes anos alheia a tanta beleza, apaixonei-me por ele e por toda sua genialidade.

Minha pesquisa é de natureza afetiva, empenhada em resgatar o porte artístico do mais brasileiro de todos os grandes compositores da ópera do século XIX, colocando-o no lugar que merece ser colocado. É um livro que irá tratar das vitórias, dos sucessos, das perdas, das tristezas, da importância de Carlos Gomes como artista, do peso de sua obra, de seu talento e sua inspiração, de sua condição de maior artista americano no seu gênero, de seu valor como inventor e produtor de beleza, como também do homem, do pai, do irmão, do gênio.

Carlos Gomes nasceu em 11 de Julho de 1836. Seu pai era um homem austero, despótico, perfeccionista e bem maduro. Possuía uma vitalidade pujante e um privilegiado senso artístico, mas era demasiadamente ciumento.
De sua mãe sabe-se muito pouco: criatura bela, alta, robusta, morena clara, dotada de temperamento vivo e ardente, 30 anos mais nova que o marido.

CASA ONDE CARLOS GOMES NASCEU

Quando CG tinha oito anos de idade, sua mãe é brutalmente assassinada aos 28 anos.
Suspeitou-se ter sido o marido, o autor do crime. Algumas pessoas afirmaram tê-lo visto na manhã do crime, entrar em casa e lavar as mãos sujas de sangue. Mas o processo criminal nunca foi localizado, simplesmente desapareceu sem deixar vestígio.

CG começou a estudar música aos 10 anos.
Aos 12 anos já dava récitas de piano, nas quais figuravam suas primeiras produções musicais.
O menino cresce ouvindo e executando arranjos e adaptações.
Foi considerado mais tarde, como um dos melhores acompanhadores, pela viva intuição musical, que lhe permitia coadjuvar qualquer instrumento ou as vozes humanas, com suprema maestria. Era já, o gênio que falava mais alto.

Tinha também nesta ocasião, lindíssima voz de tenor.
Aos 15 anos já compunha valsas, quadrilhas e polcas.
Aos 20 anos, CG já havia composto duas Missas e algumas obras.

CARLOS GOMES AOS 23 ANOS

Aos 23 anos, CG compõe a fantasia “Alta Noite”, para clarinete, consegue uma apresentação oficial ao público em SP, conseguindo projetar-se e recebendo aplausos delirantes.
Nessa época, os irmãos travam conhecimento e amizade com a nata da sociedade paulistana daquela época. 
Esta vida entre amigos, composições, festinhas, viagens, fins-de-semana e diversões de juventude aconteceu entre os anos de 1857 a 1859, uma época descompromissada e feliz.
CG foi estimulado a ir para a Corte, em  cujo Conservatório poderia aperfeiçoar-se. Mas o pai não possuía sequer recursos para uma viagem, muito menos para sustentá-lo na Corte.

Mesmo assim, em Junho de 1859, vai para o Rio de Janeiro e passa a contar com o apoio do Imperador.
D. Pedro II sabia que o Brasil não era, como não é até hoje, um país de povo culto e erudito, e por isso, procuravam mandar estudantes, artistas e cientistas para a Europa.
Segundo D. Pedro: “Um povo livre é um povo culto, porque a liberdade não pode existir onde não há cultura e educação.” E o brasileiro não era nem naquela época, como não é ainda hoje e não o será tão cedo, um povo culto nem educado e muito menos um povo erudito.

O talento do rapaz, sua conquista de bolsa de estudos pelo Conservatório, impressionam D. Pedro que manda-o aprontar-se para ir estudar em Milão.
CG foi para a Europa por conquista e merecimento, dentro de estipulações contratuais e legais e não por benemerência ou favores de quem quer que fosse.
Ele próprio fez por merecer, dentro de um processo administrativo conduzido por disposições de contratos assinados pelo Governo Imperial.
Compõe “Joanna de Flandres”, sua segunda ópera – 1863 – e a ópera é aplaudidíssima (compôs duas óperas em língua portuguesa: Sua primeira ópera, “A Noite do Castelo”)

 CARLOS GOMES AOS 27 ANOS

Carlos tem 27 anos. Foi com esta ópera de grande importância, por ser uma das primeiras óperas compostas em língua portuguesa, que CG foi agraciado com a bolsa de estudos em  Milão.  Depois da estréia, a peça nunca mais foi montada, ficando esquecida durante todo esse tempo.
Parte para a Itália a 9 de Dezembro de 1863. Ficava obrigado a escrever uma composição importante nos primeiros dois anos de permanência na Europa.
CG exilava-se num país distante, voluntariamente. Mais tarde, receberia prêmios e pagaria altos preços por eles.
“JOANNA DE FLANDRES” 

Sente pela primeira vez, a diferença de clima e de temperatura entre o Brasil tropical e a austera Europa.
Essa diferença será para ele um eterno problema. Em Milão, terá suas casas sempre exageradamente aquecidas.
Entra em contato com os modelos franceses, de suma importância, pela permeabilidade de seu talento, pela facilidade que tinha em aprender e por sua fabulosa capacidade de pensar a música. Desse aprendizado em Paris, irão ecoar reminiscências de suas futuras composições.

Anos mais tarde, Rossi diria ao maestro:
“Quando chegaste do Brasil, já trazias a certidão do talento, a prova do gênio, que as palmas populares atestam e celebrizam.”
Os seis anos que vão da chegada a Milão até “O Guarani” são para CG anos de estudo e de aprendizado, ajudando-o a superar uma desorientação provocada pelo impacto com as profundas transformações em ação no teatro musical italiano contemporâneo.
Ser brasileiro naqueles tempos, era ter imperador, corte e nobreza. Era vender, comprar e maltratar o negro escravo. Ser brasileiro era ter nas grandes cidades um grande teatro de ópera. Foi desse teatro de ópera que nasceu um CG. Era ele brasileiro legítimo.

Para um gênio como ele, permanecer no Brasil seria não ser ninguém. O Rio de Janeiro de então era para ele encantador, mas pequeno.
Aos 27 anos, CG já era experiente criador de música e bom compositor, com duas óperas de grande porte já levadas à cena, com muitas obras menores e principalmente, com um diploma de laureado do Conservatório de Música do Rio de Janeiro.
O Brasil tinha grandes talentos, no entanto, nenhum deles com tanto gênio e arte, a ponto de ir para a Europa e lá tornar-se importante elemento na renovação de uma forma de arte essencialmente nacional de outro país.

Difícil acreditar que um desconhecido cidadão do interior de São Paulo, provinciano tocador de instrumentos na minúscula banda de seu pai, depois, aluno de Conservatório no Rio de Janeiro, regente de orquestra e compositor de óperas em português na capital de um país tão distante e desconhecido, viesse a ser nome de rua em Milão, ao lado de outras ruas com nomes dos mais ilustres compositores da Itália, terra da música e palco de grandes espetáculos.
É mais que conhecido nos inúmeros restaurantes e bairros, o Caffè Guarany – tradicional marca de café da Itália.

Existe o prato “à Carlos Gomes” em um restaurante da Piazza Duomo e em várias sorveterias, dá-se a uma exótica taça de sorvetes de maracujá e baunilha o nome de “Coupe Pery e Cecília”.
O caso é raríssimo nos anais da ópera italiana e pouco freqüente na história da música, pois, seria difícil um brasileiro tornar-se importante e famoso na Itália musical da segunda metade do século XIX. Na época, os europeus não sabiam nem onde ficava o Brasil, nem que língua se falava, nem conheciam nossa história, nem nossas características fundamentais.
CG conseguiu ser importante dentro desse mundo, como pioneiro renovador de uma forma de expressão artística fundamental no país para o qual emigrara.

Antes de provar que era bom, devia provar que não era mau, o que era muito mais complicado.
CG chegou a Milão em Fevereiro de 1864, no momento certo. A década de 1860 é a década de início das mudanças e do apogeu da atração do exotismo na música dramática na França e na Itália.
É dentro desse movimento, que CG começa a ser artista da música, sob a estética da ópera italiana.
Para um musicista da época, Milão é uma cidade importante: é a cidade da Scala, dos grandes editores, um centro onde se pode encontrar muita gente.

Filho de um país desconhecido e confundido com Austrália ou África, na irritante indiferença de povos adiantados, CG de cabelos pretos, longos e grossos, pele escura, pretendendo um lugar no Conservatório de Milão, onde estudava a nata da juventude italiana, era algo bizarro e esquisito.A hostilidade e o preconceito foram cedendo, graças ao seu talento incomum e à sua grandiosa genialidade.
Não seria o apadrinhamento do Imperador nem muito menos, as cartas de apresentação dos amigos ou ajuda do irmão, que abririam as portas a CG para trabalhar na Itália, nem de apresentar, em dois anos, uma primeira revista musical – “Se sa minga”, que obtém imenso sucesso e que o faz tornar-se conhecido e admirado como o autor criativo desta e de outra revista - “Nella luna”, logo em seguida. Foi um sucesso estrondoso, fantástico, enorme, como há muito não se via nos teatros da Itália.

E nem de, em seis anos, levar ao palco do Teatro alla Scala uma ópera que se constituiria um dos três ou quatro maiores sucessos do teatro lírico da Itália de seu tempo, na primeira obra bem recebida pelo público europeu e um dos mais importantes sucessos de todos os palcos do mundo nos anos seguintes.
CG foi o compositor pioneiro a praticar, com esplêndido e incomensurável sucesso, os novos princípios.
Seria CG quem lhes iria dar esse diferente e esse desconhecido, depois de fazer parte dos meios musicais da cidade. Foi o aluno mais talentoso daquela Escola, merecedor de “fazer seus estudos em qualquer conservatório da Itália”, segundo seu professor.

Para que lhe fosse concedida bolsa tão liberal e o direito de, no fim dos estudos, fazer exame público e obter a carta de Maestro, o sucesso de suas duas primeiras óperas contribuiu enormemente.
CG viveu entre duas nacionalidades.
Em Milão, era como um animal perdido em terras estranhas, um peixe fora d’água, um estranho no ninho, absorto em suas criações geniais, perdido em seus pensamentos e, ao mesmo tempo, surpreendente na docilidade e integridade de seu caráter.
CG era um coração generoso e nobre, cheio de afeição pelos amigos e absoluto entusiasmo por sua arte, que era o ar que respirava.
Logo CG estrearia como artista de ópera na Itália, com “O Guarani” e ainda por cima no Scala, mas gozava de simpatia no ambiente milanês, por ser um jovem franco e jovial, cheio de fogo latino e de acesas esperanças.

Anos mais tarde, já habituado à Itália e a Milão, compra vasto terreno em Maggianico e manda erguer sua casa, sua esplêndida “Villa Brasilia”, levando do Brasil em cada uma de suas viagens, dezenas de mudas de lindíssimas árvores tropicais, como também vários sagüis e pássaros.

VILLA BRASILIA (arquivo pessoal)

Sua inspiração e seu talento incomodavam e causavam inveja a seus colegas, uma vez que CG extraía música genuína de sons da natureza e do mundo ao seu redor. Além disso, CG aparecia em Milão com melodias que possuíam acentuado sabor brasileiro, o que surpreendia a todos como coisa absolutamente inédita, sons que lhes entravam magicamente pelos ouvidos e lhes fazia muito bem.
Mas o preconceito era grande: nem o ambiente artístico, considerado mais liberal era diferente da sociedade burguesa italiana da época e CG sentia muita dificuldade de ambientação.

O preconceito contra ele duraria toda a vida, mais ainda no momento em que os italianos decidiram não dar mais vez a um compositor estrangeiro, que tirava dos compositores nacionais, grandes chances de criação.
Até mesmo os familiares de Adelina, sua futura mulher, chamavam-no de “selvagem” e de “negro”.
Ele nunca freqüentará os salões mundanos, pois, não o convidavam.
O que CG gostava mesmo era de se meter nos bastidores dos teatros e nos escritórios de empresários e de tratar da apresentação de suas obras. Era praticamente só nisso que CG pensava, quando não estava compondo. 

CG era apaixonado pela música, por sentar-se ao piano, cantar e compor.
Em 1866, quando termina seus estudos, sente-se motivado e preparado para criar. Obtém o título de “maestro”, o que se concedia aos compositores diplomados.
Imediatamente, italianizam o nome CARLOS GOMES: é Carlo Gómez que começa a ser citado nos jornais. CG tratava, sempre, de explicar que era “Carlos” com “s” e que era brasileiro.
CG obtinha sucesso com sua música num período em que nenhuma ópera nova de autor italiano era sucesso real de público.
Na Itália cresce sua fama. No Brasil, o fato apenas provocara inveja.

Mesmo assim, tornou-se um conceituado compositor, teve amigos muito importantes, era popular não só em Milão, mas pela Itália toda.
“O Guarani” logo se tornou a ópera de maior sucesso popular de seu tempo.
Então, casa-se com Adelina Peri, exímia pianista que conhecera no Conservatório de Música de Milão, em 1871, que estava grávida de sete meses. Não foi um casamento de conto de fadas. CG já é nesta época, o festejado autor de “O Guarani”. 
O sucesso de “O Guarani” o consola, uma vez que se sente atormentado com as novas condições de vida e obrigado a ficar mais em casa, o que o aborrece muito, acostumado que estava com saídas à noite.

Adelina ficará constantemente grávida, terá três filhos em menos de quatro anos e CG estará quase sempre ausente, pois, fará inúmeras viagens pela Itália, acompanhando, sempre agitado e exigente, ensaios e récitas de “O Guarani”.

ADELINA PERI

As temporadas de ópera e balé dos teatros de Milão, eram entregues a empresas e a empresários. Eram os empresários que se encarregavam de contratar cantores, regentes, técnicos, copistas, coristas, instrumentistas, bailarinos e eram eles que arcavam com lucros ou prejuízos, cobrando não só pelos ingressos de bilheteria como, também, por tudo que fosse possível cobrar. E CG viu que não seria difícil encenar sua ópera na Scala, desde que tivesse bastante dinheiro para pagar por isto.
Todo o corpo de baile de “O Guarani” contava com mais de 500 pessoas. A orquestra era preenchida por mais de cem deles, 16 primeiros violinos, 8 violinos, 12 violoncelos, 9 contrabaixos, 2 harpas, etc.

Não há quem não conheça os maravilhosos acordes de sua estupenda abertura. A ópera era agradável, com música de sabor bem brasileiro, onde os índios tinham papel principal. Foi representada em toda a Europa.
“O Guarani” é obra pioneira dentro da renovação do melodrama italiano, um diamante que conserva seu eterno brilho e onde quer que se apresente, conquista público e crítica.
Fumava “Sigari Virginia”, uns charutinhos de fumo forte e na ponta uma piteirinha de palha dura e fumava muito, o que provavelmente tenha lhe causado o câncer.

                                   PERSONALIDADE

Uma característica negativa de CG foi não fazer cerimônia em contar a quem quer que fosse, suas misérias e humilhações. Nunca procurou demonstrar amor-próprio ou orgulho, nunca encobriu suas necessidades, dívidas e problemas familiares.
Não era culto, nem erudito, nem leitor de colunas intelectuais dos jornais, nem conhecedor do Belo e do Sublime.
Sua personalidade inquieta e insegura o faziam sempre gastar mais do que podia, assumir dívidas contando com recebimentos futuros incertos e considerar descabido ter uma vida mais simples e comedida.
Seu perfeccionismo o levava a sugerir e até mesmo exigir nomes de cantores e regentes de orquestra para suas óperas, o que causava infindáveis discussões com os empresários, donos do dinheiro.

Administrou mal sua vida e seu patrimônio, o que o levará mais tarde a uma descida de nível de vida de artista famoso e o que dará margem a comentários que procurariam arruinar a posição conquistada. 
Seu prestígio na Itália provinha da novidade e beleza de suas obras, sem apreciações paralelas, apenas e tão somente isto. O homem CG não lhes interessava, ao contrário, lhes incomodava profundamente.
Ser estrangeiro e compositor de sucesso, não dava a ele para os italianos, privilégios de herói ou de conquistador. Aliás, mais tarde, o fato de ser estrangeiro provocaria uma reação adversa e inesperada. 
CG possuía uma personalidade frágil afetada por inquietações em relação aos outros. Jovem, vivendo em um país que não era o seu, preocupado em não decepcionar D. Pedro, CG pensava no público, pensava no sucesso como meta imediata e muito pouco em si mesmo.

“Fosca” foi outro sucesso, a segunda ópera que compunha na Itália. É considerada por alguns críticos, sua melhor ópera em quatro atos.
Com a “Fosca”, CG foi o primeiro compositor de óperas na Itália a criar um papel completo e acabado para uma atriz-cantora, dentro de uma nova vocalidade por ele criada.
A “Fosca” era e é a obra mais importante da ópera italiana daquele tempo e uma das obras-primas da música dramática italiana do século XIX, mas não assumiu essa mais que merecida posição.

A “Fosca” não correu mundo como “O Guarani”, obra mais popular, mais fácil de ouvir, com suas exuberantes melodias e ritmos. O que se lamenta é que obra de tal alcance e tal beleza permaneça esquecida, sem que o público possa deliciar-se com ela. Foi a obra-chave na evolução do melodrama italiano, introdutora pioneira de um novo estilo e de uma nova vocalidade. A “Fosca” marca a fase de maior avanço alcançado por CG na arte.
“Fosca” será a obra-prima musical do maestro, embora outras óperas de sua autoria obtiveram maior sucesso de público e de bilheteria.

                                   FILHOS


ITALA E CARLOS ANDRÉ

Carlotta nasce em 27 de Fevereiro de 1872.
A 29 de Janeiro de 1873, nasce Carlos André, o Carletto.
Mario Gomes nasce em 10 de Outubro de 1874.
Manuel José nasce em fins de Março de 1876.
Em 6 de Setembro de 1878, nascia Itália Maria Ana Gomes.

O índice de mortalidade infantil na Itália naquela época, era escandalosamente alto, devido ao clima e às péssimas condições de higiene das cidades italianas, especialmente da qualidade da água que nelas se bebia. O clima de Milão era e é absolutamente inóspito, o inverno é úmido e enevoado, a cidade se cobre de uma neblina pegajosa, que entra pelas frestas. Os sistemas de aquecimento a carvão e a lenha eram caríssimos e as instalações precárias em uma cidade de edifícios muito velhos, alguns da Idade Média.
Dos cinco filhos de CG, três morrem em tenra idade e Carletto morre aos 25 anos, logo depois do maestro, do mesmo mal: tuberculose.

Na época em que seus filhos eram pequenos, havia um altíssimo nível de mortalidade infantil na Itália. Entre 1871 e 1875, anos em que nasceram dois dos filhos do casal Gomes, a mortalidade é de 4.950.000 crianças, das quais 1.950.000 morrem nos cinco primeiros anos de vida. Um percentual de quase quarenta por cento. E CG perde quatro de seus filhos, sobrevivendo apenas Ítala.
Os homens da política brasileira não valorizavam sua obra e sua presença na Europa, como maior representante da cultura brasileira e as campanhas contra ele, criadas por invejosos e ignorantes e com seu comportamento perdulário foram inúmeras. Assim, era difícil para CG, conseguir ajuda oficial do governo brasileiro.

Entre 1870 e 1879, CG foi o compositor que mais óperas teve estreadas na Scala, maior teatro italiano e o compositor de óperas italianas mais representado nesse teatro, depois de Verdi.
Então, surge “Salvador Rosa”, que apesar do medo de CG será um sucesso triunfal, um enredo folhetinesco e colorido, ao gosto da época na Itália, a primeira ópera sobre assuntos italianos, mais um estrondoso sucesso de público e de crítica. “Salvador Rosa” foi a ópera que mais dinheiro lhe rendeu.

 CG começa a trabalhar em “Maria Tudor”. CG era obsessivo na busca de situações para efeitos musicais sensacionais. Foi esta ópera que marcou o início de um longo declínio da carreira do compositor na Itália.
A “Maria Tudor” traz, em sua partitura, exemplos da melhor música que se podia escrever dentro do panorama da ópera italiana, obra inovadora, que anos depois, teria seus modelos copiados. 
No entanto, a chama de CG começava a se apagar, o seu instinto musical não era mais suficiente para dirigir a tessitura de uma ópera.
 
As inúmeras e violentas brigas com Adelina, amarguraram muitos anos de sua vida.
Logo, o fim do casamento de CG com Adelina e o triste destino de seus filhos, agravaram a ansiedade do maestro, tornando-se capaz de atitudes que prejudicariam em muito sua carreira e sua obra. Os desentendimentos entre o casal, que já dormia separado, se repetiriam por muitos anos, culminando em escandaloso processo de separação movido por CG.
Quanto à hipótese de ter sido adultério cometido por Adelina a causa do pedido de CG, há alguns fortes indícios.

Muita coisa tem sido escrita sem fundamento algum, especialmente sobre o comportamento de CG em sua vida conjugal.
Aliás, CG gostava bastante mesmo, era de si próprio, não se incomodava muito com o que se passava ao seu redor, se o fato não o interessava diretamente. Seu ambiente era a música de ópera, para a qual se formara desde criança. O gênio criador melódico e a riqueza de criação na composição existiam nele por natureza, sem esforço, era-lhe natural e, conseqüentemente, sem grandes elaborações do intelecto. CG não precisava do intelecto para criar, sua inspiração brotava-lhe da alma.   

Sua educação, a figura do pai, o que acontecera com sua mãe em Campinas, as teorias então na moda de que a mulher é o complemento biológico e social do homem, fizeram dele, um artista que não misturava amores e mulheres com sua arte e sua produção. Não há em sua obra, uma, sequer, que se declare fruto de desenfreada paixão, nem de meditado amor, nada. CG não era dado a arroubos passionais.  
Seu centro de atenção era a perseguição da glória, da fama como compositor e do dinheiro que vinha dessa glória, para poder ostentar um padrão de vida que o equiparasse a seus colegas bem-sucedidos e aos artistas de seu meio, tudo girava em torno disso.

Nunca uma mulher fez parte do objetivo de vida por ele traçado, no que aliás, CG acertou, pois, se fosse dado a conquistas amorosas, sua vida teria sido muito mais desastrosa, nem mesmo Adelina, a mais próxima de todas as mulheres de sua vida e ao mesmo tempo tão distante, a ponto de ser levada a um Tribunal sob pesadas acusações.
As aventuras amorosas de CG tem tanto valor, quanto os banquetes a que tenha comparecido em sua vida de artista. Já a separação e o processo contra Adelina é um acontecimento central na vida do compositor.

A morte seguida dos filhos e as brigas com Adelina na justiça afetaram sua saúde e aos quarenta e três anos, sentiu-se abalado, moral e fisicamente, pela primeira vez.
Depois de “Maria Tudor”, entrou em fase de lento e gradual afastamento. A “Maria Tudor” é de 1879. Só em 1889 – dez anos depois – o mundo verá uma nova ópera de CG, mesmo assim, não estreada na Itália: “O Escravo”.
A ópera mais “bonita” de todas as compostas por CG. Talvez seja a mais importante obra de CG e segundo alguns críticos, a melhor música. Foi dedicada à Princesa Izabel. É um dos maiores e mais belos cantos de amor jamais escritos por um artista à sua terra natal. Essa ópera é prova de sua total maturidade artística e do domínio completo do arsenal de recursos de que dispunha.

CG colhe mais um triunfo.
Na estréia, um dos violinistas era seu irmão Juca, que viera de Campinas especialmente para participar do evento.
Era a despedida dos irmãos, que nunca mais se veriam.
Os problemas aumentam enquanto não consegue mais compor por causa de um esgotamento nervoso que lhe tira a serenidade.
O momento era de polêmicas, CG era ligado a um regime monárquico que morria e a ópera era lindíssima.

“O Escravo” indica o início de um novo auge, não só como compositor de inigualável talento e inspiração, mas de um artista moderno, atualizado, a pensar para a frente e a encarar sua arte como um corpo dinâmico em eterna mudança.
A 15 de Novembro de 1889, Marechal Deodoro proclamava a República. CG encontrava-se em Campinas. O novo regime nega-lhe a pensão que solicitara o amigo Francisco Glicério, por ser CG amigo e protegido da família imperial, que havia sido banida do país.
O Imperador lhe havia prometido a nomeação para diretor do Conservatório de Música do Rio de Janeiro. CG queria esse cargo, que não o obrigaria a ficar no Brasil durante todo o ano.
A exoneração de D. Pedro II foi para ele duro golpe.


Depois de “O Escravo”, CG dará ainda ao mundo duas partituras em que continuará a ser melódico, inspirado e inventivo: “Condor”, ópera estreada em 1891, na Scala e “Colombo”, poema vocal-sinfônico, estreado no Rio de Janeiro em 1892, obra prima absoluta. 

“Condor” foi a ópera que obteve um discreto sucesso e destituída de qualquer interesse teatral. Sentia dores na garganta e a piteira, de vez em quando, feria-lhe a ponta da língua. Esta ópera é um novo momento na arte de CG.

“Colombo” é a última grande composição de CG, que aos cinqüenta e seis anos de idade, com mais de trinta anos, chegava à posição de absoluto domínio de todos os imensos recursos de que dispunha, pelo longo acúmulo de conhecimentos.
CG não teve um só imitador no Brasil, nem mesmo no aspecto exterior de suas obras.
O poder público não gostava e não gosta dos artistas em nosso país e CG entrava na dança, assim como Pedro Américo, Machado de Assis, João Caetano, Castro Alves, encarados como parasitas e inúteis. E a posteridade, ao invés de encará-lo como grande artista, poderoso inovador, autor de obras magnificamente importantes para a história do gênero que escolheu, o vê como um renegado.

Bach morreu quase completamente cego, mas não se fala do Bach infeliz – é de sua obra, de sua importância para a história da arte que se fala.
Mozart foi enterrado como indigente em cova rasa e também não há referências ao pobre Mozart, o adjetivo não cabe, quando se percebe o enorme legado deixado por ele e assim, Beethoven, surdo e bêbado e assim, Shubert a morrer tão jovem e assim, Schumann, louco de pedra, atirando-se ao Reno, internado por Clara no Manicômio e assim Chopin asmático e tuberculoso, morto antes dos quarenta anos. Não é nas desgraças desses artistas que se fixam seus biógrafos. Citam-se as penúrias, pois, elas às vezes, explicam a obra.  
CG deu ao mundo, grandes obras inovadoras, mesmo com sua vida dispersiva e desorganizada.

CG é a figura de maior relevo no panorama operístico italiano dos anos setenta e oitenta, pela originalidade de idéias e personalidade de estilo. Não se pode compreender a fase de transição do melodrama romântico, chamado “naturalista”, sem se fazer referência à sua obra.
As óperas de CG, hoje, só são encontradas, entre as páginas das partituras conservadas nas bibliotecas, única fonte acessível para o seu conhecimento direto.
Em 1896, a situação financeira de CG era, realmente, penosa na Itália e a vinda para o Brasil se fazia imperiosa. O motivo principal de ter CG morrido em terra brasileira foi a necessidade econômica e não um poético patriotismo a fazê-lo querer morrer aqui, mesmo porque, deixara dois filhos na Itália a esperá-lo.

Já em fase terminal, vem para o Pará. Sentia muitas dores na garganta e na língua, inteiramente tomada pelo câncer.
Juca lhe telegrafava de Campinas, pedindo notícias sobre o seu verdadeiro estado de saúde, querendo visitá-lo.  CG responde que estava melhor.
A 5 de Julho, em total estado de fraqueza,  toma posse como diretor do Conservatório de Música do Pará, em meio a solenidades, discursos e bandas de música. Toca-se a sinfonia de “O Guarani” e o Hino Nacional e o Pará dá posse, como diretor de seu tão sonhado Conservatório de Música, a um CG que morria.

Às dez horas e quinze minutos da noite de 16 de Setembro de 1896, o mundo se despede do autor de óperas mais encenado na Scala, depois de Verdi, na década de transição mais importante para o desenvolvimento do melodrama italiano, do primeiro autor de uma “revista” musical na Itália, do pioneiro criador de um novo modo de compor música para o palco, do introdutor de uma nova forma de agilização do discurso musical, do mais importante elemento de ligação entre o velho de Verdi e o novo de Puccini. 

E então, eu me pergunto: por que CG partiu para o mundo e meu avô permaneceu em Campinas ?
E encontro a resposta:
Porque é difícil aprisionar os que tem asas.

Fonte: "Olhos de Águia - Antonio Carlos Gomes - A Trajetória de um Gênio" - meu livro ainda por editar.











 









quinta-feira, 5 de setembro de 2013

UM POUCO DE CARLOS GOMES 5



'FOSCA'

Sobre a FOSCA, publica a GAZZETTA MUSICALE DI MILANO, em 2 de novembro de 1890:

“Um sucesso enorme e merecido, pois é um espetáculo verdadeiramente excelente, completo, um dos melhores que já tivemos neste teatro. Os aplausos calorosos à sinfonia continuaram por toda a ópera e, no final, se transformaram em uma grande ovação… Gomes, figura simpática, fisionomia artística, inteligente, esbelto, desenvolto, teve de comparecer uma infinidade de vezes ao proscênio… (L’Italia Del Popolo).

Certamente a Fosca ocupa – até agora – entre as óperas de Gomes, o primeiro lugar como seriedade de intentos e como perfeição de feitura: sua partitura revela um musicista enamorado da arte que ele cultiva com consciência e paixão profunda.

Gomes foi chamado ao proscênio 24 vezes no curso da ópera e 3 depois de descida a cortina.”


CURIOSIDADES DO MES DE CARLOS GOMES

O CORETO ONDE ACONTECIAM AS FESTAS - Arquivo Pessoal

O jornal GAZZETTA MUSICALE DI MILANO nº 34, de 24 de agosto de 1884, comenta sobre a grande festa em  Vila Brasilia:

“Para falar desse pequeno paraíso, como se deveria, seria mister transcrever as belíssimas descrições que dele fez Antonio Ghislanzoni – essa cabeça amena, apuradíssimo talento e sua primeira vítima – com tanta eficácia de intenção, expandindo-lhe a fama por toda parte, atraindo uma falange considerável de artistas de todos os tipos – e feliz do Gomes que aqui botou muito dinheiro na construção de um esplendor de casa de campo.

Assim sucedeu que, por uma concatenação de efeitos devidos a uma única causa, fosse ideada, projetada e realizada uma estupenda festa artística que unia o duplo objetivo do adágio latino – o belo com o útil – agradando os sentidos e beneficiando o Asilo Infantil há pouco fundado no pequeno, elegante e genial grupo de casas que forma o burgo de Maggianico, quase às portas de Lecco.

Não podendo fazer, pela limitação do espaço, a descrição do lugar, falaremos – embora brevemente – do concerto, para o qual uma seleta multidão de pessoas e de nomes se reuniu domingo passado, 17 do corrente, na esplêndida Villa de Carlos Gomes, onde precisamente o concerto teve lugar.

Desde as horas matutinas de domingo, veículos das redondezas e trens ferroviários conduziram a Maggianico um número considerável de visitantes, todos com o único propósito de acorrer ao concerto – à excepcional solenidade artística de beneficência.

O senhor Gomes, para melhor acomodar tanta gente, cobriu com uma enorme tenda a plataforma que dá acesso ao salão, de modo a formar como que um único ambiente onde todos pudessem ouvir e saborear o concerto.

Além de Gomes, anfitrião e alma da festa, vimos Ponchielli com a sua senhora, os cônjuges Appiani, conhecidos pianistas, Dominiceti, que veraneia em Maggianico, Ferdinando Fontana, que desceu de Caprino Bergamasco, Arrigo Boito, o pintor Formis, Cardinale, Cotone, Villani, Varesi – nomes queridos à arte musical – e um deputado, Prinetti.

O concerto, iniciado às 2, terminou às 4,30. O programa foi longo, mas interessantíssimo, e ninguém, com certeza, objetou sobre a demora do tempo empregado.

Quanto à parte cantada, receberam aplausos merecidíssimos Cardinale (tenor), a senhora Ponchielli-Brambilla, a senhora Martinez (soprano), Villani (baixo), Cotone (barítono).

Quanto à parte instrumental, fizeram furor no piano o casal Appiani, como sempre, bravíssimos, eficazes, e o professor Romeo Orsi com o clarinete, que diremos todo seu, tão bem o toca.

A orquestra não foi esquecida; a pequena orquestra de Cappelli, que executou de modo incomparável a Overture de O Guarani e a Dança das Horas, de A Gioconda – brilhante homenagem aos dois gênios musicais e aos dois corações de artista que deram fama à morada de Maggianico.

O concerto, esplendidamente bem-sucedido do lado artístico, o foi também pelo lado material da beneficência: 1.500 liras entraram em caixa, oferecidas por generosos doadores que contribuíram com quanto quiseram, fundando o asilo infantil da risonha cidadezinha.”



FRASE DO MAESTRO:

“CONFESSO MINHA GRATIDÃO AOS AMIGOS DO PARÁ QUE, AFINAL DE CONTAS, FORAM OS ÚNICOS A DAREM UM EMPREGO QUE CONDIZ COM MEU OFÍCIO, CONFORME O MEU ANTIGO DESEJO."

Fonte: Meu livro "OLHOS DE ÁGUIA - ANTONIO CARLOS GOMES - A TRAJETÓRIA DE UM GÊNIO" - a ser publicado um dia.


OLHOS DE ÁGUIA




quarta-feira, 4 de setembro de 2013

UM POUCO DE CARLOS GOMES 4






Aurora e Tramonto  - CARLOS GOMES

by Rodolpho Caniato 


Aurora e Tramonto é uma das muitas de canções escritas por CARLOS GOMES  durante seus quase vinte anos de vida na Itália. As palavras escritas  pelo poeta M. M. Marcello na primeira parte do poema Aurora e Tramonto descrevem a beleza do despontar do sol (aurora), trazendo com ele as  promessas do porvir de uma vida que principia. 

Na segunda parte  (tramonto, ocaso) ele faz uma analogia entre o cair da tarde (ocaso) e o  fim da vida humana (morte). Esse poema foi musicado por CARLOS GOMES  usando uma escala ascendente para o nascer do sol e outra descendente  para o ocaso, produzindo um efeito bastante original, que lembra, em  parte, a sua Alvorada, prelúdio do quarto ato de Lo Schiavo. 

A vida de  CARLOS GOMES, especialmente durante o período em que viveu na Itália,  parece ter algo que lembra essa metáfora de glória e triunfo inicial,  seguido de um período final de grandes dissabores, tristezas, declínio e  morte.
Suas primeiras obras na Itália foram duas revistas musicais ligadas ao  teatro: Se Sa Minga,(Não se sabe nada) com diálogos declamados (e não  cantados) em dialeto milanês e La Luna(A Lua), ambas com texto do mesmo  autor do libreto de Il Guarany, Antonio Scalvini. O sucesso alcançado  por essas duas revistas fez aumentar a popularidade e o prestígio de  CARLOS GOMES, estimulando nele o anseio de conquistar maiores alturas.  Seu sonho agora era ter uma de suas obras encenadas no maior templo da  ópera de então, o teatro Scalla de Milão. Mas para compor uma grande  ópera, faltava-lhe ainda uma grande história, digna da grandiosidade de  sua música.

Conta-se que numa tarde, enquanto caminhava pela grande praça da  catedral, o Duomo de Milão, o maestro, nosso “Tonico de Campinas”, ouviu  alguém apregoar uma tradução de O Guarani, do escritor brasileiro José  de Alencar. A obra desse autor, que logo se tornaria ministro da Justiça  do imperador D. Pedro II, havia sido publicada pouco tempo antes, mas  já se encontrava traduzida para outros idiomas. O Guarani, escrito por  José de Alencar em sua fase indianista, seria um grande argumento e um  tema de grande brasilidade, digno de ser musicado para uma grande ópera.  CARLOS GOMES apressou-se em levar a idéia a Antônio Scalvini,  libretista já seu amigo, que aceitou a encomenda de preparar o  indispensável libreto em italiano. 

Para o texto da ópera, em italiano,  foram feitas algumas modificações na história, especialmente em relação à  origem de um dos protagonistas, o “bandido” Gonzalez que no romance  original era um padre.

A estréia de Il Guarany no maior templo da ópera mundial, no Scala de  Milão, aconteceu em 19 de março de 1870. Logo de início foram doze  récitas, acrescidas de outras quinze na temporada seguinte. O caráter  original e inovador da música de CARLOS GOMES se evidenciava nos novos  instrumentos de percussão, no tema exótico de sua história e na íntima  relação entre música, texto e o desenrolar da trama. Logo a música do “Tonico de Campinas” ecoaria por muitas outras importantes cidades da  Europa e das Américas. À estréia de Milão seguiram-se apresentações em  Buenos Aires, Barcelona, Montevidéu, Havana, São Petersburgo, Malta,  Nice, Lisboa, México, São Francisco, Nova York, Estocolmo e Nápoles. 

Era  a maior consagração que um autor poderia almejar. Esse triunfo se  reveste de especial significado pelo fato de CARLOS GOMES ser um mestiço  vindo das Américas, até então desconsideradas pela Europa,  especialmente no campo das artes e da cultura. Durante toda uma década  (1870-80), CARLOS GOMES foi o autor mais encenado no teatro Scalla,  superado apenas pelo grande e já muito famoso Giuseppe Verdi.

Com a fama, veio também a fortuna. CARLOS GOMES construiu uma enorme e  rica mansão, a “Villa Brasília” em Lecco, ao norte de Milão, nas  proximidades do lago de Como. Depois de uma promissora alvorada, sua  vida parecia agora iluminada pelo sol do meio-dia. Na vida pessoal,  entretanto, começavam as tribulações de um casamento infeliz, culminando  em uma separação judicial que, além de conflituosa, acabou se tornando  de domínio público. Outro motivo que lhe causou enorme sofrimento foi a  morte prematura de três de seus filhos.

O sol começava a declinar, caminhando para um ocaso cheio de dissabores, tribulações e sofrimento físico.

O êxito de O Guarani, uma história envolvendo índios do Novo Mundo,  despertou em CARLOS GOMES e em seus editores o desejo de repetir o  sucesso empregando algum tema parecido, que também envolvesse índios.  Nessa época, Alfredo D’Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay, seu  amigo da corte de D. Pedro II, havia lançado uma novela, O Escravo, cujo  protagonista era um negro escravo, que se tornava o herói da história.  Não se sabe ao certo de quem nem de onde surgiu a idéia, mas alguém  sugeriu que o personagem do negro fosse substituído por um índio. O fato  é que no libreto escrito por Rodolpho Paravicini a história recuou no  tempo e o negro foi substituído por um índio, desta vez não mais  guarani, mas tamoio. Isso deu motivo para possíveis querelas e  aborrecimentos, a começar com o próprio autor do argumento, o Visconde  de Taunay. Como se não bastasse, CARLOS GOMES resolveu ainda inserir no  libreto um poema sobre “liberdade” (cantado pelos índios) de autoria de  Carlo Gighanti, diretor do colégio militar onde estudava um de seus  filhos. Isso provocou um sério conflito com o autor do libreto original,  Rodolpho \Paravicini, que não podia admitir esse tipo de intromissão em  sua obra, ainda mais usando palavras de outro autor, que pareciam estar  relacionadas ao nascente orgulho nacional do período de unificação da  Itália. Paravicini não só entrou com uma ação judicial como conseguiu a  proibição de Lo Schiavo em solo italiano. A Itália parecia fechar as  portas ao antes glorioso e festejado autor brasileiro. Foi um grande  revés na carreira de CARLOS GOMES, trazendo conseqüências desastrosas,  que se somaram às tribulações de caráter pessoal na vida de Carlos  Gomes.

De volta ao Brasil, CARLOS GOMES dedicou a ópera Lo Schiavo à princesa  Isabel. A estréia aconteceu no Brasil, já que na Itália não foi  possível. CARLOS GOMES pretendia que a montagem fosse feita com  patrocínio oficial. O custo da montagem — quarenta contos de réis —, no  entanto, era muito alto para as finanças do Império, que já enfrentava  uma crise que o levaria ao fim. Desta forma, os recursos para a montagem  de O Escravo foram obtidos através de uma subscrição feita entre os  nobres, por iniciativa da princesa Isabel.

Finalmente, a estréia de O Escravo aconteceu em 2 de setembro de 1889,  no Imperial Teatro D. Pedro II, no Rio de Janeiro, com a presença do  imperador. Apesar do sucesso e da aclamação do público, parte da  imprensa fez duríssimas críticas à obra, acusando CARLOS GOMES de  oportunismo e até mesmo de racismo, embora reconhecendo a qualidade e a  beleza de sua música. No prelúdio do quarto ato dessa ópera pode-se  ouvir sua célebre Alvorada, uma das mais famosas e belas peças  orquestrais de CARLOS GOMES, onde ele retrata, com grande colorido  orquestral, a beleza, o mistério e os ruídos da selva brasileira,  terminando em uma apoteose sonora ascendente, que culmina com o nascer  do sol, o raiar de um novo dia. Lamentavelmente, sua Alvorada chegou com  o crepúsculo do Império e da Família Real, que sempre o apoiara e a  quem ele devia, em grande parte, sua carreira. Poucos meses depois da  estréia de O Escravo a República foi proclamada e a Família Real seguiu  para o exílio. Embora todos reconhecessem os méritos de CARLOS GOMES, a  partida da Família Real deixou-o “órfão”, pois o clima era hostil a tudo  que se ligava à recém-finda monarquia.

A “orfandade” política de nosso CARLOS GOMES levou-o de volta à Itália,  na tentativa de dar um novo impulso à sua carreira. Seu nome ainda era  bastante conhecido por lá, apesar dos reveses. Sua última ópera, O  Condor, foi composta em três meses, sob encomenda do teatro Scala e com  libreto de Mario Canti. Porém, seu argumento não empolgou o público. A  estréia foi no Scala de Milão em fevereiro de 1891, mas sem alcançar o  sucesso que seu autor já experimentara. Os tempos eram outros...  Despontava agora o verismo, especialmente com os jovens Puccini,  Mascagni e Leoncavallo, alunos de um amigo e admirador de CARLOS GOMES,  Ammilcare Ponchielli, o autor de La Gioconda.
 
Com a saúde debilitada, a Itália já não lhe parecia mais propícia, tanto  do ponto de vista artístico quanto pessoal. De volta ao Brasil, sua  glória passada e seu currículo sugeriam a indicação de seu nome para o  cargo mais almejado no Brasil no campo da música: o de diretor do  Conservatório Musical do Rio de Janeiro. Porém seu nome foi preterido,  devido à sua estreita ligação com a antiga corte imperial, em favor de  Leopoldo Miguez.

Já muito mal de saúde e abatido, CARLOS GOMES mudou-se para Belém do  Pará, ocupando o cargo de diretor do Conservatório Musical de Belém,  cidade onde veio a falecer em 16 de dezembro de 1896. Depois de ter  atingido as alturas da glória e da fama, sua vida chegava ao ocaso. Sua  luminosa alvorada chegava ao fim, dando lugar a um nostálgico e  prematuro tramonto.

Seu corpo foi embalsamado e transportado para Santos no vapor Itaipu,  numa viagem de 21 dias. O percurso do porto de Santos a Campinas, que  ele fizera ainda jovem, em lombo de burro, agora era percorrido por seu  féretro, de volta à sua terra, na recém-construída estrada de ferro.  Depois do ocaso de sua vida, Carlos Gomes, finalmente, entrava para a  história, sendo reconhecido como “gênio musical das Américas” e motivo  de orgulho para sua cidade, Campinas, e para seu país, o Brasil.

Seu repouso definitivo se deu em Campinas, no túmulo-monumento cuja  pedra fundamental foi assistida por Santos Dumont. Esse monumento foi  encimado pela figura austera do maestro-regente, esculpida por um dos  maiores artistas brasileiros da época, Rodolpho Barnardelli.

Morto CARLOS GOMES, caberia especialmente à sua cidade, Campinas, e a  seu país, o Brasil, não só cultuar a sua memória como principalmente  cultivar e difundir sua grande e imortal obra musical.

O ano de 1970 marcou o centenário da estréia de Il Guarany. Campinas,  terra de CARLOS GOMES, não poderia ficar indiferente a essa celebração.  Com o patrocínio da Prefeitura Municipal, um grupo de amadores tomou a  iniciativa de fazer uma montagem da ópera que, pela ocasião, se tornaria  histórica. Na semana em que se completava o centenário, foram encenadas  quatro récitas de O Guarani, inaugurando, com apressada reforma, o  Teatro Municipal Castro Mendes. A direção musical da temporada ficou a  cargo do maestro Oreste Sinatra, do Teatro Municipal de São Paulo, à  frente da Orquestra Sinfônica de Campinas. A Prefeitura de São Paulo  colaborou com esse evento cedendo parte de seu Coral Lírico e alguns  solistas. 

Os papéis principais foram desempenhados por solistas de  Campinas ou aqui radicados, tendo como no papel-título o tenor César  D´Ottaviano. A cenografia e os adereços foram feitos por um artista  plástico de Campinas, Geraldo Yürgensen. A direção de cena coube a  Silney Siqueira e a gravação magnética, ao vivo, ficou a cargo de  Henrique de Oliveira.

Em 2002 Rodolpho Caniato, que assina estas páginas e que desempenhou na  ocasião o papel de “Don Antonio de Mariz” (baixo) promoveu e custeou uma  pequena edição do programa daquelas récitas e da gravação digital (em  dois CDs). Esses poucos exemplares foram doados aos protagonistas ainda  vivos daquele evento e a algumas instituições, como o Museu CARLOS GOMES  (CCLA) e o Conservatório CARLOS GOMES. Na ocasião da assinatura pública  da lei do FICC pelo Prefeito Municipal de Campinas, no teatro do Centro  de Convivência, um exemplar completo daquela pequena edição foi  publicamente entregue por este signatário à autoridade presente,  manifestando a esperança de que aquele momento marcasse um avivamento da  memória desse grande compositor brasileiro e uma maior divulgação de  sua obra.



 













terça-feira, 3 de setembro de 2013

UM POUCO DE CARLOS GOMES 3






A NOITE DO CASTELO


 Programa completo entregue em 1977 no Teatro interno do Centro de Convivência de Campinas




 
No dia 4 deste mes de Setembro, completou-se 150 anos da estréia no Rio de Janeiro da Ópera A Noite do Castelo.
Este foi o programa completo desta ópera encenada em 1977 em Campinas com a OSMC.

Para se gostar de CARLOS GOMES é necessário que se  conheça sua obra e se estude sua vida. 
Depois de O Guarani, os compositores italianos aprenderam  com CARLOS GOMES  como devia ser escrita uma ópera.
Tudo o que Verdi realizou após O Guarani são obras primas.
Hoje, segunda feira dia  05/9 na Academia Campinense de Letras, Prof. Alexandre estará dando uma palestra sobre o maestro.







segunda-feira, 2 de setembro de 2013

UM POUCO DE CARLOS GOMES 2








Abertura da Ópera "SALVADOR ROSA" - CARLOS GOMES - pela Banda  Conselheiro Mayrink no campeonato Nacional 2009 na cidade de Mairinque.

Bi-Campeã Estadua e Nacional 2008/2009



A história se passa em 1647: é a rebeldia dos pescadores napolitanos  contra o peso dos tributos cobrados pelo vice-rei, representante de  Felipe IV da Espanha. A corte arma uma conspiração e o herói do povo é  assassinado.
Incluíram outro vulto popular napolitano da época:  Salvador Rosa, grande pintor, gravador, poeta, músico e ator famoso em  1650, líder dos rebeldes. Paralelo a tudo isso, desenrola-se a história  de amor de Salvador e Isabella – personagens fictícios – filha do  vive-rei, o Duque D’Arcos – bem como fictícia é a participação do famoso  pintor na dita revolução. Além disso, existe o personagem carismático  de Gennariello, soprano, um travesti, a exemplo do Oscar de Un Ballo in  Maschera.


Gennariello é responsável por divertidas cenas que entremeiam o drama,  bem como quando canta a mais famosa ária da ópera, Mia Piccirella. 
Tem-se  também, a monumental personagem do Duque D’Arcos, que talvez, ao lado  do Cacique em O Guarani, represente o maior papel de Carlos Gomes para  Baixo. 
O principal assunto dessa ópera é o jogo político que está em  relevo e não a história de amor, apesar de ela ser ilustrada por um  longo e belíssimo dueto. O libreto é muito claro e é louvável como  consegue, em apenas duas horas, contar tanta coisa.

Só na década de 1870, Salvador Rosa se apresentou: em Gênova, Trieste,  Milão, na Inglaterra, Alemanha e no Brasil – ´74; Turim, Piancenza,  Ravenna, Montevidéu, Voghera, Buenos Aires e no Rio de Janeiro – ´76;  Módena, Bérgamo, Brescia, Voghera, Pádua, Cuneo, Parva, Vicenza, Ancona –  ´77); Malta, Florença, Roma, Milão – ´78); Gênova, Chieti, Livorno,  Milão, Turim, Malta, Vercelli, Lodi – nesta cidade a temporada começa  com Salvador Rosa, estreia I Lombard de Verdi que, entretanto, cai e  volta Salvador Rosa – ´79.

Na década de 1880, apresenta-se: no Rio de Janeiro, em Salvador, Recife,  Florença, Nápoles, Atenas e em Crema, Lodi, Verdecelli, na abertura da  temporada dessas três cidades, junto com O Guarani – ´80; em Verona –  ´81; em Tolentino, Parma, no Recife e em Salvador – ´82; em Pádua,  Palermo, Cremona, Cagliari e Sassari, na abertura de temporada dessas  cinco cidades – ´83; no Rio de Janeiro e em São Paulo – ´89.
Apresentou-se em Buenos Aires em 1897.

CURIOSIDADES DO MES DE CARLOS GOMES:
VOCÊS SABIAM ?

Durante um período de nove anos incompletos, a ópera "O GUARANI" foi apresentada nos seguintes teatros:
• 1870 19/3 – Teatro alla Scala (estreia) de Milão,

2/12 – Teatro Lírico do Rio de Janeiro;

• 1871 2/9 – Exposição Industrial de Milão,

18/10 – Teatro de La Pergola de Florença,

20/11 – Teatro Apollo de Roma;

• 1872 fevereiro – Teatro Carlo Felice de Gênova,

abril – Teatro Communale de Ferrara,

junho – Convent Garden de Londres,

julho – Teatro Eretenio de Vicenza,

agosto – Teatro Communale de Bolonha,

setembro – Teatro Communale de Trieste,

outubro – Teatro Sociale de Treviso,

28/12 – Teatro Régio de Turim (chamado 10 vezes à cena),

dezembro – Teatro Bellini de Palermo,

dezembro – Teatro Bellini de Catânia;

• 1873 fevereiro – Teatro Régio de Reggio,

maio – Santiago – Chile,

agosto – Teatro de Lugo de Ferrara,

25/10 – Teatro Nazionale de Gênova;

• 1874 Teatro Colon de Buenos Aires;

• 1875 fevereiro – Teatro Real (Burgtheater) de Viena,

abril – Ópera Real (Kungliga Teatern) de Estocolmo,

junho – Teatro Real da Moeda (Theâtre Royal de la Monnaie) de Bruxelas;

• 1876 março – Teatro Lírico de Varsóvia,

agosto – Teatro Solis de Montevidéu (em castelhano),

4/11 – Teatro São Pedro do Rio de Janeiro,

23/12 – Foi apresentada a balada de O Guarani no Ópera de Paris (Palais Garnier);

• 1878 junho – Trocadero de Paris,

novembro – Teatro Havana de Havana;

• 1879 12/02 – Teatro Mariinsky em São Petersburgo,

14/02 – Bolshoi Theatre de Moscou;

•  1894 Trechos de músicas de Carlos Gomes no Concerto de Música  Brasileira, organizado por Alberto Nepomuceno e Francisco Braga, na Sala  Pleyel de Paris.

As apresentações escaladas da ópera quase deram volta ao mundo. Só na década de 1870, "O GUARANI" percorre:


• Milão, Rio de Janeiro, São Paulo – ´70;

• Milão, Roma Florença – ´71;

• Londres (Covent Garden), Ferrara, Trieste, Bolonha, Treviso, Gênova, Vicenza, Turim, Palermo, Catânia – ´72;

• Turim, Reggio, Lugo, Gênova, Santiago do Chile, Ferrara – ´73;

• Buenos Aires (Colon) – ´74;

• Veneza, Estocolmo, Bruxelas, Viena – ´75;

• Barcelona, Varsóvia, Rio de Janeiro, Montevidéu, Fiume – ´76;

• Rio de Janeiro, Módena, Bérgamo, Brescia, Voghera, Pádua, Cuneo, Parma, Vicenza, Ancona – ´77;

• Bahia, Rio de Janeiro, Havana – ´78;

•  São Petersburgo, Moscou, Malta, Havana, Gênova, Lorna, Montevidéu, Rio  de Janeiro, São Paulo, Turim, Vercelli, Rieti, Livorno, Milão, Salvador,  Voghera – ´79.

Na década de 1880:

• Recife, Salvador, Lisboa, Nice e, na abertura de temporada, em três cidades, Crema, Lodi, Vercelli – ´80;

• Milão (maio e setembro), Faenza, Rio – ´81;

• Belém do Pará, Rio de Janeiro, São Paulo, Milão – ´82;

• Colon de Buenos Aires, México, Zagreb (Croácia)– ´83; por falha dos editores, deixa de ser apresentada em Paris – ´84;

• Como – ´86;

• Varsóvia – ´89.


FRASE DO MAESTRO:


"A MÚSICA - BEM SABEMOS - NÃO É MAIS DO QUE PAPEL BORRADO." (Antonio CARLOS GOMES)










domingo, 1 de setembro de 2013

COMEÇA O MES DE CARLOS GOMES !






SOBRE A GRANDE OBRA DE GOMES



CRÍTICA SOBRE "COLOMBO":
Na partitura, dedicou COLOMBO ao povo americano. É uma obra amadurecida; para Salvador Ruberti, é a criação mais perfeita “pelo equilíbrio de todas as partes, pela correspondência exata entre a expressão lírica e o complexo sinfônico, pela riqueza da paleta instrumental, pela intensidade dramática, pelo ímpeto e arremesso emotivos. Em suma: nada de supérfluo e, também, nenhuma lacuna a preencher.”
 

Salvatore Ruberti escreve sobre COLOMBO, na REVISTA BRASILEIRA DE MÚSICA, vol. III, p.308:
“O poema symphonico-vocal Colombo, de Carlos Gomes, é, a meu ver, a criação mais perfeita que o genial artista brasileiro tenha dado ao mundo musical. Perfeita pelo equilíbrio em todas as partes, pela correspondência exacta entre a expressão lyrica e o complexo symphonico, pela riqueza da paleta instrumental, pela intensidade dramática, pelo ímpeto e arremesso emotivos.”

 IL TEATRO ILLUSTRADO DI MILANO, de março de1891:

 “Mas o acontecimento de maior importância foi Condor, obra escrita a pedido e recentemente para o Scala, do ilustre maestro brasileiro Carlos Gomes, que encontrou ainda entre nós as vivas simpatias de outros tempos.”

“(…) o genial, simpático maestro Gomes alcançou um de seus mais sinceros triunfos (puro…) e eu senti voltar-se as mesmas impressões de 1873 ainda mais vivas; vi sobre a cena aquela mesma cabeça característica do maestro brasileiro, somente a cor daqueles cabelos foi alterada; a alma do artista não. Pelo contrário, parece agora mais jovem, mais vigorosa do que então!”



Comenta  IL SECOLO 22 de fevereiro de 1891:

 “O Gomes do Condor já não lembra o Gomes de suas óperas anteriores. Ele suavizou-se, modernizando-se (…)
(…) É um dever registrar que após o prelúdio e toda a primeira cena de caráter alegre, conduzida com mão de mestre, assim como o primeiro dueto entre Condor e Odaléa, há profusão de excelentes trechos.
O primeiro trecho finaliza com o canto da visão do Condor e é o ato mais finamente elaborado de toda a ópera (…)

(…) Nenhum compositor ousaria hoje em dia se furtar ao hábito de começar o último ato de uma ópera sem um prelúdio e Gomes foi realmente inspirado escrevendo o que precede o terceiro ato do Condor; é uma página suave, apaixonada, de primorosa elegância instrumental que prepara com mão de mestre as peripécias que finalizam a ópera. O mesmo direi do monólogo do soprano, de profunda expressão dramática cujo motivo principal é repetido pelos violinos readquirindo novo prestígio, quando cantado pela voz humana. Muito original a ballata interior do pagem. O final é de grande efeito dramático e demonstra toda e experiência cênica do Maestro Gomes.

A ópera foi montada com muito gosto; cenários belíssimos e maravilhosa indumentária… raras vezes a fusão entre os elementos vocais e instrumentais alcançou tal perfeição… e com que alma entusiástica foi cantada a música de Gomes!”

Crítica sobre "CONDOR":


O LA PERSEVERANZA do dia seguinte, assinalava:
 “Não há o que dizer! O Scala, ontem à noite, dava razão ao honorífico título que lhe vem há tempo sendo consignado: o de primeiro teatro do mundo. O aspecto da ampla sala, tornado solene não só pela quantidade extraordinária mas, pela qualidade do público, no qual se notavam, além de outros astros maiores e menores do Olimpo milanês, os sempre presentes a qualquer première, as falanges incalculáveis constituintes do mundo musical, literário, jornalístico, era por si só o mais esplêndido dos espetáculos; tal de deixar inesquecível impressão em quem tivesse pela primeira vez posto o pé neste artístico santuário.”

A FRUSTRA TEATRALE confirma a simpatia que CARLOS GOMES goza ainda na Itália, pela primeira apresentação de CONDOR:
   
“Sábado reuniu-se no nosso teatro máximo toda a Milão artística, e o aspecto do teatro, sem dúvida, era imponente: fazia recordar as noitadas memoráveis dos primeiros espetáculos de certa época. Nos palcos e na plateia, circulava uma corrente de simpatia pelo ilustre maestro e venerando autor da ópera, e uma certa segurança sobre o mérito desta, o que demonstra claramente quanta estima o público tem pelo talento do artista quanto afeto pelo homem, que com as suas virtudes soube conquistar um país onde é estrangeiro.”

CURIOSIDADES SOBRE O MES DE CARLOS GOMES:
 
CARLOS GOMES escreve ao amigo Tornaghi:

“Maggianico, 25 de julho de 1884

Caro Tornaghi

Peço-lhe que me diga, com a possível presteza, o preço de venda das seguintes óperas para o teatro de Pernambuco, Orquestra média:

Ernani
Força do Destino
Aída
Baile de Máscaras
Barbeiro
Norma
Rigoletto
Salvador Rosa

Partes da orquestra para o referido teatro, que é como o nosso Carcano.

Partes cantantes.
30 Coros de ambos os sexos.

Nada de partitura de orquestra.

Tendo eu que dar uma resposta solícita a Pernambuco, estou certo de que me dará uma pronta resposta.

Sempre seu afetuoso

Gomes

P. S.: Cordiais saudações a todos em casa.”


(Casa Editora G. Ricordi, Milão)
 

As óperas Ernani, A Força do Destino, Aída, Um Baile de Máscaras e Rigoletto são de Verdi; Norma, de Vincenzo Bellini; O Barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini.

Os preços das peças referidas na carta são em liras: Salvador Rosa - 1.500; Ernani - 500; A Força do Destino - 500; Aída - 1.500, Um Baile de Máscaras - 600; O Barbeiro de Sevilha - 500; Norma - 500 e Rigoletto - 600.


FRASE DO MAESTRO:



 Dizia sempre CARLOS GOMES, referindo-se ao irmão querido, Sant'Anna Gomes:

“GRAÇAS A ESSE IRMÃO VIAJO A LISBOA COM AS 360 LIBRAS QUE DE BOM GRADO ME EMPRESTOU." (Antonio CARLOS GOMES)

 Fonte: Meu livro "OLHOS DE ÁGUIA - ANTONIO CARLOS GOMES - A TRAJETÓRIA DE UM GÊNIO" - a ser publicado.